A censura no Regime Militar foi realmente tão ruim? (parte 3)
Em 1974, ano que talvez tenha sido o ápice da censura sobre a música popular no Brasil, Waldik Soriano teve sua canção Tortura de Amor censurada. O motivo: continha a palavra “tortura”, e era inadmissível que se falasse em tortura naquele período. A música foi composta no final dos anos 50 e foi gravada por vários cantores, mas foi na regravação pelo próprio Waldik que ela enfrentou problema com a Censura em 1974.
Polêmico, Waldik Soriano, em 1973, numa entrevista ao jornal Zero Hora de Porto Alegre, defendeu a existência de grupos de extermínio e disse que Cristo para ele era um arruaceiro e enganador. A sociedade não gostou nada dessas declarações e vários setores se mobilizaram para derrubar Waldik. Deputados do Rio Grande do Sul da Arena (partido do governo militar) e do MDB (partido de oposição), uniram-se em pronunciamentos contra ele, deixando de lado, por um momento, divergências entre os dois partidos. Eles defendiam a censura e o banimento de Waldik Soriano, esquecendo-se, os deputados do MDB, “de que um dos principais itens do programa do seu partido naquele momento era exatamente a defesa da liberdade de oposição e de imprensa”. Waldik também sofreu censura da sociedade, em algumas cidades do interior do Brasil seus discos e pôsteres foram queimados em fogueiras armadas em praça pública.
Benito di Paula
A censura e o drible à censura
O cantor e compositor Benito di Paula, ícone do chamado sambão-jóia, também passou pelo crivo dos militares e teve que utilizar o recurso da “linguagem da fresta” para burlar o cerco da Censura, onde as letras das músicas faziam sentido não no dito, mas no interdito, nas entrelinhas. Benito di Paula teve seu primeiro LP recolhido das lojas logo após seu lançamento, em 1971, por conter na faixa de abertura o samba Apesar de Você de Chico Buarque. Quando se decidiu incluir a música no LP de Benito ela ainda não estava proibida. “Num primeiro momento não era óbvio para todo mundo que a mensagem de Chico Buarque era endereçada ao presidente Médici. A própria Censura só foi perceber isto meses depois do lançamento, quando o compacto de Apesar de Você já tocava na rádio e havia vendido cerca de 100 mil cópias”.
Tributo à um rei esquecido
Benito Di Paula -1974
Benito Di Paula -1974
No caso de Tributo a um rei esquecido, o problema com a censura é que a canção não somente faz homenagem a um dos artistas brasileiros mais visados pela ditadura militar - Geraldo Vandré, compositor de Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, - como também amplifica uma pergunta que muitos brasileiros faziam em relação a Vandré: “O que foi que fizeram com ele?”
Para driblar a Censura Benito di Paula utilizou a linguagem de fresta em suas músicas O bom é o Juca (composição de Carlos Magno e que também faz referência ao general Médici) e Tributo a um rei esquecido (homenagem ao cantor e compositor Geraldo Vandré). No final da música O bom é o Juca utiliza-se “o bom é o Juca e tem que ser/ presidente da escola” para não ser acusado de pretender o cargo do presidente Médici. E assim a música foi liberada pela Censura que não percebeu a analogia entre Brasil-favela, presidente da República-presidente da escola.
Tributo A Um Rei Esquecido
Benito Di Paula, 1974
Ele foi um rei, e brincou com a sorte
Hoje ele é nada, e retrata a morte
Ele foi um rei, e brincou com a sorte
Hoje ele é nada, e retrata a morte
Ele passou por mim, mudo e entristecido
Eu quis gritar seu nome, não pude
Ele olhou pra parede, disse coisas lindas
Disse um poema pra um poste, me veio lágrimas
O que foi que fizeram com ele? Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei
O que foi que fizeram com ele? Não sei
Só sei que este trapo, esse homem foi um rei
Luiz Ayrão
E o protesto dos Treze anos; Wando e a crítica social
Luiz Ayrão, por ter conseguido se formar em Direito, é um dos únicos desta geração de artistas “cafonas” que fez algumas canções com letras intencionalmente políticas. Uma dessas músicas é o samba Treze anos e que também sofreu com a Censura. “Embora não traga em seu título referências políticas muito óbvias, é um dos mais contundentes protestos produzidos no âmbito da musica popular contra o regime instalado no Brasil em 1964”. O samba é uma resposta as comemorações dos treze anos da revolução de 1964. Ele foi proibido pela Censura com o título de Treze anos, mas Luiz Ayrão, malandramente troca o nome do samba para O divórcio e o manda para um outro departamento de Censura sem mudar nada na letra, e com isso é liberado. Quando o general Fernando Belfort Bethlem ouviu a música não gostou nada e esbravejou aos quatro cantos: “Vocês são todos uns calhordas! Olha só o que esse cara fez. Ele sacaneou todo mundo e ninguém viu (...) esse cara sacaneou todos nós e vocês deixaram”. Com a ameaça de o disco ser recolhido das lojas a gravadora acionou um advogado para intervir junto à Brasília e conseguiu fazer com que a música não fosse proibida.
Para Paulo Cesar, o samba O divórcio poderia ter servido de trilha sonora para tantas passeatas promovidas naquele período, mas “os estudantes universitários não ouviam cantores populares como Luiz Ayrão e por isso não tomaram conhecimento do samba”. Em obras de artistas populares como Luiz Ayrão, Benito di Paula e Wando, “negavam-se as intenções críticas, por mais evidentes que fossem. Como não eram nomes identificados com a MPB, não seriam capazes de refletir e criticar”.
O divórcio
Luiz Aragão – 1977
No ano de 1977 o regime saudava os “13 anos de revolução de 1964”, enquanto Luiz Ayrão cantava “Treze anos que eu te aturo e não aguento mais / Não há cristo que suporte e eu não aguento mais”, uma clara referência ao regime vigente naquela época e teve sua música censurada. Ao trocar o título “Treze Anos” por “O Divórcio” ela foi liberada.
Divórcio
Luiz Ayrão, 1977
Treze anos eu te aturo
Eu não agüento mais
Não há "cristo" que suporte
Eu não suporto mais
Treze anos me seguro
E agora não dá mais
Se treze é minha sorte
Vai, me deixa em paz
Você vem me infernizando
Como satanás
Você vem me enclausurando
Como alcatraz
Você vem me sufocando
Como o próprio gás
Ainda vive me gozando
Assim já é demais
Você vem me tapeando
Como um pente-fino
E vem me conversando
Como ao bom menino
E vem subjugando
O meu destino
E vem me instigando
A um desatino
Um dia eu perco a timidez
E falo sério
E faço as minhas leis
Com o meu critério
E vou para o xadrez
Ou o cemitério
Mas findo de uma vez
Com seu império.
Wando
O cantor e compositor Wando, também fez músicas com forte conteúdo crítico-social, a música Presidente da favela é um exemplo. Ela chama a atenção para um dos aspectos sociais mais importantes daquele período: a emergência de movimentos de organização de moradores de bairros e favelas.
Secos e Molhados
Nas apresentações do Secos & Molhados, de Ney Matogrosso, o problema não era a música, mas o visual andrógino e transgressor: tecidos coloridos, brilhantes, tules e uma certa nudez preocupavam os censores, que só liberavam as transmissões de shows se os corpos dos cantores não fossem mostrados, deixando apenas os rostos em close.

Odair José
Estima-se que pelo menos 40 letras de Odair foram vetadas pela Censura.
A questão foi analisada pelo pesquisador Ivan Lima, na dissertação de mestrado em história da Universidade Federal da Paraíba Ame, assuma e consuma: Canções, censura e crônicas sociais no Brasil de Odair José (1972-1979).
Pesquisador dedicou três anos de pesquisa em dissertação sobre o músico.
“Tudo que era negócio de cama, corno, seio, não podia falar. Passei quatro anos dessa maneira“, conta Odair José, famoso pelas músicas bregas. Canções como “O Motel” e “A Primeira Noite” foram censuradas justamente por ofenderem a moral e os bons costumes. Por outro lado, a famosa “Pare de Tomar a Pílula” foi liberada e os censores só voltaram atrás quando uma campanha nacional pelo controle de natalidade foi patrocinada pelo governo.
Censuradas
Em qualquer lugar
Nem sempre as mudanças no conteúdo ou negociações com a Divisão de Censura de Diversões Públicas garantiam aprovação de letras antes vetadas. Em qualquer lugar é exemplo: a letra foi analisada por 12 diferentes censores em quatro processos distintos e, em 15 de junho de 1973, o parecer definitivo do órgão proibiu a gravação. O problema foi o conteúdo "considerado imoral", sugerindo a prática sexual em qualquer lugar.

A primeira noite
A perseguição levou o músico a objetar várias das proibições impostas, a ponto do músico procurar, em 1974, o general Golbery Couto e Silva, chefe de gabinete civil de Geisel, para discutir a situação. Sem sucesso nas negociações, Odair mudou a letra de A primeira noite, vetada por ser considerada de moral duvidosa para os jovens. A faixa acabou modificada, inclusive no título, que virou Noite de desejo.

Amantes
O veto à música é justificado no documento por conta da "Ligação Amorosa Irregular e comentários pouco convenientes". Para Lima, "essas argumentações evidenciam a censura ao que fosse moralmente condenável. O casamento como instituição é atribuído como algo que não podia ser arranhado". O pesquisador lembra também que o divórcio ainda não era legalmente instituído em 1974.
Jorge Mautner
“Papoulas e arco-íris”, vetada pelo conteúdo “alienado, extraterrestre. Umas das justificativas da censura diz que a letra de Papoulas e Arco Iris, de Jorge Mautner, “leva a interpretações conhecidas como: papoulas (ópio) e arco-iris (sonhos coloridos)” Diz ainda que “Além do mais, durante toda a letra o autor se mantém em constante vibração extraterrena…”
Geraldo Vandré
Para Não Dizer que Não Falei das Flores.
Caminhando (Pra Não Dizer que Não Falei das Flores) foi composta em 1968 e participou do III Festival Internacional da Canção, ficando em segundo lugar, atrás de “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque. A composição se tornou um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição ao governo militar. O refrão "Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, / Não espera acontecer" foi interpretado como uma chamada à luta armada contra os ditadores. Ainda em 1968, com o AI-5, Vandré foi obrigado a exilar-se.
Antes de deixar o país Geraldo Vandré compôs ainda A canção da despedida. Existem duas lendas sobre sua volta ao Brasil: a primeira e mais difundida diz que ele foi preso, torturado, castrado e enlouqueceu; a segunda, diz que ele fez acordo com os órgãos de repressão na sua volta, mas nenhuma das duas foi confirmada. Vandré, no entanto, sempre afirmou que nunca foi torturado e se nega a falar sobre o assunto.
Nessa entrevista ele descontrói o mito de que tenha feito a canção “Pra não dizer que não falei de flores” como forma de protesto e se demonstra indignado por ter sido usado para esse propósito, pois, não desejava ser um cantor militante, mas, somente um artista fiel a suas convicções artísticas.
Caminhando (Pra não Dizer que não Falei das Flores)
Geraldo Vandré, 1968
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
A música, que ficou conhecida mais tarde como Canção da Despedida, foi gravada em 1968 pela parceria de Vandré e Geraldo Azevedo foi proibida de execução porque o censor identificou conteúdo político e referência aos auto exilados nos versos: “Eu quis ficar aqui mas não podia, o meu caminho a ti não conduzia, um rei mal coroado não queria o amor em seu reinado, pois sabia não ia ser amado.”
Canção da Despedida
Geraldo Azevedo - 1968
Já vou embora
mas sei que vou voltar
Amor não chora
Se eu volto é pra ficar
Amor não chora
que a hora é de deixar
O amor de agora pra sempre ele ficar
Eu quis ficar aqui mas não podia
O meu caminho a ti não conduzia
Um rei mal coroado não queria o amor em seu reinado
Pois sabia não ia ser amado
Amor não chora eu volto um dia
O rei velho e cansado já morria
Perdido em seu reinado
Sem Maria
Quando eu me despedia
No meu canto lhe dizia
Ivan lins
Está tudo nas cartas (Cartomante)
Ivan Lins/Vitor Martins, 1978
Ivan Lins/Vitor Martins, 1978
“Essa música se chamava “Está tudo nas cartas”, uma jornalista da revista Veja usou uma declaração do meu parceiro, Vitor Martins, que ele deu em off, e ela publicou. Nessa declaração o Vitor não falava boas coisas sobre o chefe da Censura Federal, mas isso não fazia parte da entrevista. Depois dessa entrevista do Vitor, Está tudo nas cartas entrou na lista de “vetada definitivamente” pela censura. Mas como ela já estava pronta na voz de Elis Regina, alguém da gravadora Phillips foi a Brasília e conseguiu liberar a música, mas com uma condição: era preciso mexer no título. Mudamos para Cartomante.” (Ivan Lins)
Cartomante
Compositor: Ivan Lins/Vitor Martins, 1978
Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
Não ande nos bares, esqueça os amigos
Não pare nas praças, não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não ponha o dedo na nossa ferida
Nos dias de hoje não lhes dê motivo
Porque na verdade eu te quero vivo
Tenha paciência, Deus está contigo
Deus está conosco até o pescoço
Já está escrito, já está previsto
Por todas as videntes, pelas cartomantes
Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias
Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai, não fica nada.
Sérgio Sampaio
Eu quero é botar meu bloco na rua
Sérgio Sampaio - 1972
Sérgio Sampaio - 1972
Lançada em 1972, Eu quero é botar meu bloco na rua foi censurada pelo sentido de incitação da população contra as forças armadas. Na época, o exército levava tropas para as ruas, como meio de demonstrar a força para os cidadãos. Sérgio Sampaio também queria colocar a sua tropa de guerrilheiros (bloco) na rua, com objetivos diferentes, de tomada de poder. O Durango Kid, que aparece na letra da canção, é uma metáfora para militares, no caso o inimigo que impedia o bloco de ser “botado” na rua.
Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua
Sérgio Sampaio- 1972
Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou
Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos nisso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero todo mundo nesse carnaval...
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou
Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender
Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender.
Pequeno Mapa do Tempo (Belchior, 1977)
Pequeno Mapa do Tempo foi censurada por fazer uma crítica feroz contra o regime vigente. A canção começa com “Eu tenho medo e medo está por fora” e segue com “Eu tenho medo que chega a hora, em que eu preciso entrar no avião”, em alusão ao exílio. Com três carimbos de PROIBIDO, a música trazia, segundo os censores, mensagens de protesto político contra a realidade sócio-econômico-política brasileira.
Pequeno Mapa do Tempo
Belchior - 1977
Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração
Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião
Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão
Medo, medo. Medo, medo, medo, medo
Eu tenho medo de Belo Horizonte
Eu tenho medo de Minas Gerais
Eu tenho medo que Natal Vitória
Eu tenho medo Goiânia Goiás
Eu tenho medo Salvador Bahia
Eu tenho medo Belém do Pará
Eu tenho medo Pai, Filho, Espírito Santo São Paulo
Eu tenho medo eu tenho C eu digo A
Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife
Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá
Eu tenho medo estrela do norte, paixão, morte é certeza
Medo Fortaleza, medo Ceará
Medo, medo. Medo, medo, medo, medo
Eu tenho medo e já aconteceu
Eu tenho medo e inda está por vir
Morre o meu medo e isto não é segredo
Eu mando buscar outro lá no Piauí
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
Manda buscar outro, maninha, lá no Piauí
Populus
Belchior - 1977
Populus é mais uma canção de Belchior que apresenta teor político e que foi vetada junto com Pequeno Mapa do Tempo. Ela faz uma referência subliminar aos presos políticos e às torturas que ocorriam nos prédios do Dops e Deops. Belchior também cita o “esgoto do porão” para onde eram levados os prisioneiros que sofriam todos os tipos de tortura.
Populus
Belchior - 1977
Populus, meu cão...
O escravo, indiferente, que trabalha
e, por presente, tem migalhas sobre o chão.
Populus, meu cão.
Primeiro, foi seu pai,
segundo, seu irmão;
terceiro, agora, é ele... agora é ele,
de geração, em geração, em geração.
No congresso do medo internacional
ouvi o segredo do enredo final
sobre Populus, meu cão:
documento oficial, em
testamento especial,
sobre a morte, sem razão
de Populus, meu cão.
Populus, Populus, Populus, meu chão.
Delírios sanguíneos
espumas nos teus lábios...
Tudo em vão.
Tenho medo de Populus, meu cão,
roto no esgoto do porão.
Seu olhar de quase gente,
as fileiras dos seus dentes...
Trago o rosto marcado
e eles me conhecerão, me conhecerão.
Populus, Populus, Populus, meu cão
Chico Brito
Wilson B./Afonso T. grav. Paulinho da Viola. 1971
Essa música, gravada por Paulinho da Viola em 1971, foi vetada sob a alegação de que evidenciava o clima marginal do samba.
Chico Brito
Compositor: Wilson Batista/Afonso Teixeira, 1971
Lá vem o Chico Brito,
Descendo o morro nas mãos do Peçanha,
É mais um processo!
É mais uma façanha!
Chico Brito fez do baralho seu melhor esporte,
É valente no morro,
Dizem que fuma uma erva do norte.
Quando menino ia na escola,
Era aplicado, tinha religião,
Quando jogava bola era escolhido para capitão,
Mas, a vida tem os seus revezes,
Diz sempre Chico defendendo teses,
Se o homem nasceu bom, e bom não se conservou,
A culpa é da sociedade que o transformou.
Raul Seixas
Rock das aranhas
Cláudio Roberto/Raul Seixas - 1980
Essa música, segundo o próprio Raul Seixas, foi censurada por motivos morais. Podemos dizer que a música em questão trata da temática da sexualidade, mais precisamente da questão da homossexualidade feminina. E para a censura a sua letra era sexualmente explícita, portanto imprópria de ser veiculada. Foi proibida de tocar em rádio e TV, mas liberada para ser gravada.
Rock das aranhas
Compositor: Cláudio Roberto/Raul Seixas, 1980
Subi no muro do quintal
E vi uma transa que não é normal
E ninguém (guém, guém, guém) vai acreditar
Eu vi duas mulheres
Botando aranha prá brigar
Duas aranhas, duas aranhas
Duas aranhas, duas aranhas
Vem cá mulher deixa de manha
Minha cobra quer comer sua aranha
Meu corpo todo se tremeu
E nem a cobra entendeu
Como é que pode duas aranhas se esfregando
Eu tô sabendo, alguma coisa tá faltando
A minha cobra, cobra criada
A minha cobra, cobra criada
Vem cá mulher deixa de manha
Minha cobra quer comer sua aranha
Deve ter uma boa explicação
O que é que essas aranhas tão fazendo ali no chão
Uma em cima, a outra embaixo
E a cobra perguntando onde é que eu me encaixo?
A minha cobra, cobra criada
A minha cobra, cobra criada
Vem cá mulher deixa de manha
Minha cobra quer comer sua aranha
Soltei a cobra e ela foi direto
Foi pro meio das aranhas
Prá mostrar como é que é certo
Cobra com aranha é que dá pé
Aranha com aranha sempre deu em jacaré
É minha cobra, cobra com aranha
É minha cobra, com as aranhas
Vem cá mulher deixa de manha
Minha cobra quer comer sua aranha
Mas afinal o que agradava aos censores?
A defesa da família tradicional, dos bons costumes, da moral e do país. o ufanismo era algo que realmente elevava alma dos militares.
A dupla Dom & Ravel ficou marcada como representante da ideologia expressa pelo regime militar e principal porta-voz das realizações do governo no período do “milagre econômico”, com sua música Eu te amo meu Brasil, gravada em 1970, em meio a euforia coletiva pela conquista da Copa do Mundo do México, pelo grupo de rock Os Incríveis.
A música se tornou um grande sucesso naquele ano, e ao mesmo tempo, tornou-se uma das músicas mais rejeitadas por aqueles que faziam oposição ao regime militar. “A composição traz implícita a ideologia do nacionalismo ufanista, característico dos regimes autoritários, mas ao recordar o tema Dom afirma que ele é resultado de influências da época, do que estava vendo e ouvindo nos rádios, nas propagandas e nas ruas”.
Havia um orgulho em ser brasileiro e uma onda ufanista cobria o Brasil de norte a sul. E esta onda de entusiasmo pelo Brasil não foi expresso apenas por Dom & Ravel, “diversos compositores, das mais variadas tendências da música, produziram mensagens que, em maior ou menor grau, se harmonizavam com a atmosfera desejada pela propaganda oficial do regime”, mas somente a dupla Dom & Ravel ficou estigmatizada por isso.
Um exemplo da alegria coletiva com a nação brasileira expressa em forma de música é a composição País tropical de Jorge Benjor lançada por Wilson Simonal em 1969. Vale ressaltar que Médici recebeu várias manifestações de afago e incentivo de vários cantores populares. Por causa da propaganda feita pelo seu governo e pelo “milagre econômico”, Médici foi muito elogiado. O grupo Os Originais do Samba, os sambistas Jorginho do Império e Pedrinho Rodrigues, também gravaram músicas exaltando o Brasil e defendendo o slogan do governo Médici: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O conjunto de Waldeck de Carvalho, o cantor Roberto Silva e o bloco Cacique de Ramos manifestaram em músicas seu apoio e simpatia ao governo Médici.
O vendaval ufanista também arrastou artistas da MPB que transitavam pelos círculos da esquerda, é o caso de Ivan Lins, que no V Festival Internacional da Canção, em 1970, apareceu com a composição O amor é o meu país. “A oposição protestava mas as adesões se ampliavam”.
“A marcha Eu te amo meu Brasil é apenas mais uma entre diversas outras composições que naquele momento expressavam um certo otimismo com o país. (...) Para estes artistas, como para grande parte da população brasileira, o ufanismo era algo natural e legítimo naquele momento”. (Ravel)
Em março de 1971, a dupla Dom e Ravel gravou seu primeiro LP, e uma das faixas de maior destaque é a balada Só o amor constrói, mensagem de união e fraternidade que, mesmo não sendo ufanista, está acompanhada de signos identificados com a ideologia expressa pelo regime militar. Dom em entrevista dada a Paulo Cesar,diz que ele “via gente comentando que muitas pessoas tinham sido assassinadas, tanto de um lado quanto de outro: gente da esquerda matando; gente da direita torturando, aquela confusão toda, um lado querendo destruir o outro”, e por isso fez a música com a intenção de ver os interesses divergentes conciliados, conciliados pelo amor.
Outra gravação da dupla, em 1971, que também alcançou sucesso e polêmica foi a canção Você também é responsável, que se tornou uma espécie de símbolo do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Dom realmente acreditava no projeto educacional, ele disse que “já estava pensando em fazer uma música abordando a questão educacional em nosso país, mas ao tomar conhecimento mais profundamente daquele projeto de se erradicar o analfabetismo do Brasil, resolvi fazer Você também é responsável”. A composição expressa dois aspectos: entusiasmo com o projeto do governo e empatia com a dificuldade de milhões de brasileiros que, excluídos da ordem social, não tiveram oportunidade de aprender a ler e escrever. E canções e mensagens de exaltação ao Mobral não faltaram naquele período.
Muitos afirmam que a dupla recebeu dinheiro do governo militar para fazer a música, mas os irmãos negam essa afirmação enfatizando que jamais ganharam nada, pelo contrário, entregaram 50% dos direitos autorais dessa música para o movimento do Mobral.
Fontes:
https://www.politize.com.br/censura/
https://controversia.com.br/2017/01/17/livro-mostra-como-censura-impos-discurso-conservador-na-tv/
https://www.hypeness.com.br/2017/09/em-momento-de-debate-sobre-censura-relembre-10-musicas-proibidas-pela-ditadura-militar/
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/censura-o-regime-militar-e-a-liberdade-de-expressao.htm?cmpid=copiaecola
http://www.centrocultural.sp.gov.br/